A Plínio Salgado
A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)
A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)
Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito bem à velha casa em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras, que caem lentamentena
terra esverdeada do meu coração!
Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa agüente mais um ano
nas paredes ocilantes!
Oh! a felicidade voluptuosa
de adiar a mudança, demorá-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!
Rodrigues de Abreu
(Do livro: "Casa Destelhada")
quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
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