quinta-feira, 29 de janeiro de 2009
MANIFESTO ACADÊMICO
QUEM FOI RODRIGUES DE ABREU
« 27 de setembro de 1897 - Capivari SP † 24 de novembro de 1927 - Bauru - SP
VIDA
Benedito Luis Rodrigues de Abreu nasceu na fazenda "Picadão". Aos 7 anos passou a morar em Piracicaba, onde começou os estudos em "escola de sítio". Aos 12 anos, foi para S. Paulo com a família, e morou no Brás, depois na Vila Buarque. Neste bairro passou a trabalhar em uma farmácia com entregas a domicílio, até ser internado no "Liceu Coração de Jesus", para aprender uma profissão. Em 1918 voltou com a família para Capivari onde trabalhou na Caixa de Crédito Agrícola.
O contato com a poesia aconteceu no colégio. Abreu aprendeu métrica lendo Simões Dias e sua 1° composição, de acordo com amigos foi: "O Famélico". Para esta obra se inspirou no "Pedro Ivo" de Castro Alves.
As obras mais antigas do poeta capivariano foram descobertas pelo prof. Carlos Lopes de Mattos. Elas eram intituladas: "O Caminho do Exílio" e "A Virgem Maria", ambas publicadas na revista "Ave Maria", em 1916. Em Capivari os poemas dele eram publicados nos jornais locais "Gazeta de Capivari" e "O Município".
O seu livro de estréia deveria ter sido "Folhas", que foi submetido à apreciação de Amadeu Amaral, que se referiu assim à obra: "Depois de Olavo Bilac e Martins Fontes, é o melhor livro de estréia que tenho visto". Contudo, devido a dificuldades de publicá-lo e levado pelo interesse de seu primeiro editor (Amadeu Castanho, redator da "Gazeta de Piracicaba") de publicar o que o jovem escritor desejasse, antes de "Folhas" surgiu "Noturnos", de junho de 1919, mas que tudo indica seja de junho de 1921.
Trabalhou com Amadeu Amaral em "A Cigarra", em S. Paulo, em 1921 onde participou da Semana de Arte Moderna de 1922. Em 1922 foi para Bauru. Dois anos depois foi internado em Campos do Jordão (tuberculose). É nessa época que lança "A Sala dos Passos Perdidos" e passa a assinar "Rodrigues de Abreu" por sugestão de Amaral. Em 1925 mudou-se para S. J. dos Campos, viveu até 1927. Surge então, "Casa destelhada".
Em maio foi para Atibaia e retornou a Bauru onde feleceu, devido à doença. Alguns atribuem o agravamento da tuberculose ao rompimento do noivado.
LOCAIS DE VIDA/VIAGEM
São Paulo, Cachoeira do Campo (MG), Lavrinhas e Piracicaba
CURIOSIDADE
Além de poeta, Abreu era orador talentoso, grande ator e desportista. Foi centro-avante do "Capivariano F.C.", para o qual compôs o hino oficial. Ele fundou o "Grêmio Literário e Recreativo de Capivari", grupo que encenou "Capivari em Camisola" (versos de Rodrigues de Abreu). Doente desde 1924, Abreu já confessara o desejo de "ser tuberculoso". Segundo ele, esse era o mal que geralmente acometia os grandes poetas do passado.
MOVIMENTO LITERÁRIO
Romantismo (terceira geração)/Modernismo (primeira geração)
UM POUCO MAIS DE AMADEU AMARAL
Nas décadas seguintes trabalhou como redator de vários periódicos, entre os quais Comércio de São Paulo, Correio Paulistano, A Farpa, Gazeta de Notícias, O Estado de S. Paulo e A Vida Moderna.
Seu primeiro livro de poesia, Urzes, foi lançado em 1899.
Foi um dos fundadores da Academia Paulista de Letras, em 1909, e da Sociedade de Cultura Artística, em 1912. Em 1916 criou a Revista do Brasil, com Pereira Barreto e Júlio Mesquita, entre outros. Foi eleito membro da Academia Brasileira de Letras, em 1919. Entre 1920 e 1921 publicou as obras sobre folclore O Dialeto Caipira e A Poesia da Viola.
No período fundou, com Paulo Duarte, a Sociedade de Estudos Paulistas, para pesquisa do folclore brasileiro. Sua obra poética inclui os livros Névoa (1910), Espumas (1917) e Lâmpada Antiga (1924). Em 1977 foram publicadas suas Poesias Completas.
A poesia de Amadeu Amaral costuma ser definida pela crítica como parnasiana; entretanto, o crítico Sérgio Milliet escreveu que seus “versos serenos, sem rebuscamentos de rimas, de uma flexibilidade rítmica estranha para a época, colocava o poeta longe dos neoparnasianos vazios, integrava-o na categoria muito aceitável para nós dos neo-românticos e até dos neo-simbolistas”.
Amadeu Amaral
Autodidata, surpreendeu a todos por sua extraordinária erudição, num tempo em que não havia, em São Paulo, as universidades e os cursos especializados que vieram depois. Dedicou-se aos estudos folclóricos e, sobretudo, à dialectologia. No Brasil, foi o primeiro a estudar cientificamente um dialeto regional. O dialeto caipira, publicado em 1920, escrito à luz da lingüística, estuda o linguajar do caipira paulista da área do vale do rio Paraíba, analisando suas formas e esmiuçando-lhe sistematicamente o vocabulário. Visando à formação dos jovens, assim como Bilac incentivara o serviço militar, Amadeu Amaral procurou divulgar o escotismo, que produziu frutos, no Brasil, até ser posteriormente posto de lado.
Sua poesia enquadra-se na fase pós-parnasiana, das duas primeiras décadas do século XX. Como poeta, não estava à altura de seus dois predecessores, Gonçalves Dias e Olavo Bilac, mas destacou-se pelo desejo de contribuir, com suas obras, para a elevação de seus semelhantes, em todas as suas obras, a ponto de seu sucessor, Guilherme de Almeida, ao ser recebido na Academia, ter intitulado o seu discurso: "A poesia educativa de Amadeu Amaral", não porque tenha colocado em verso aos regras gramaticais ou os princípios de moral e cívica, mas porque visava indiretamente ao aperfeiçoamento humano.
Por ocasião do VI centenário da morte de Dante, proferiu, no Teatro Municipal de São Paulo, uma conferência, enfatizando justamente os aspectos de Dante que exaltam a elevação do espírito humano através da Sabedoria. Também soube ressaltar as qualidades morais de Bilac no seu discurso de posse, mostrando-o não apenas como um boêmio freqüentador da Confeitaria Colombo, mas como homem preocupado com os problemas da sua pátria e escritor que evoluiu em sua poesia para um grau maior de espiritualidade.
Obras:
Casa Destelhada
A minha vida é uma casa destelhada
por um vento fortíssimo de chuva.
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)
A minha alma, a inquilina, está pensando
que é preciso mudar-se, que é preciso
ir para uma casa bem coberta...
(As goteiras de todas as misérias
estão caindo, com lentidão perversa,
na terra triste do meu coração.)
Mas a minha alma está pensando
em adiar, quanto mais, a mudança precisa.
Ela quer muito bem à velha casa em que já foi feliz...
E encolhe-se, toda transida de frio,
fugindo às goteiras, que caem lentamentena
terra esverdeada do meu coração!
Oh! a felicidade estranha
de pensar que a casa agüente mais um ano
nas paredes ocilantes!
Oh! a felicidade voluptuosa
de adiar a mudança, demorá-la,
ouvindo a música das goteiras tristes,
que caem lentamente, perversamente,
na terra gelada do meu coração!
Rodrigues de Abreu
(Do livro: "Casa Destelhada")
Aos Poetas
nessas mágoas irreais em que vivemos.
Mas, somos, a fingir esses extremos,
os maiores dos homens torturados .
Carregamos as dores e os pecados
dos homens. E por eles nos ardemo
sem esperanças e êxtases supremos,
com todos os sentidos exaltados.
Tristes de nós, que vamos, nos caminhos,
chorando as almas das torturas presas,
pondo as alheias dores em canções.
Mas, sangrando a nossa alma nos espinho;
fazendo nossas todas as tristezas,
alegramos os tristes corações.
Rodrigues de Abreu
Capivari
onde ao sol, se divisa o lourejar das messes,
tu nem pareces terra, o que tu mais pareces
é um pedaço do céu de Enlevo e de Alegria!
Há por tua floresta imácula e sombria,
de asas palpitações e doçuras de preces...
Terra de um povo bom! A ambição não conheces,
nem ódio, e nem calúnia; e és boa, como o dia!
Mãe fecunda de Heróis, de mulheres divinas,
de montanhas azuis, onde o olhar se não cansa,
e de errantes visões, de sons de cavatinas...
És o país ideal da Paz e da Bonança!
Canta a luz, canta a Vida! E nas tuas campinas,
eternamente, paira o verde da Esperança!...
Rodrigues de Abreu
Hino do município de Capivari
santa terra hoje pensando em ti,
nós louvamos o teu nome amado,
festejando-te, Capivari!
Oh! Cidade natal tão benquista,
Tu feliz, sobre o teu céu de anil,
És também, um pedaço paulista
Desta Pátria gigante - o Brasil!
Salve, terra de luz e poesia
Salve, a terra de poetas que os céus
Cobrem sempre de paz e harmonia,
Sob as bênçãos excelsas de Deus!
Que este poema de graça e doçura
Que nas asas do amor sobe e voa,
Seja um brado de fé e suba à altura,
Suba ao céu que esta terra abençoa.
Eia! Em pé, pois, corações unidos!
Almas jovens, erguei-vos!
Cantai!Filhos desta terra destemidos,
Vosso grito de fé levantai!
Letra por João Prata
Melodia por João E. Capóssoli




